sexta-feira, 10 de julho de 2009

Traduções, traições e palavras

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Quando eu descobri sites em inglês sobre polyamory, não descobri nada em português. Porque, espante-se, estava a procurar por "poliamoria".

Um dia, lembrei-me de procurar por "poliamor" - bingo. Depois acabei a conhecer mais pessoas e reparei, para minha consternação, que ninguém me sabia responder concretamente à dúvida sobre "qual a formulação correcta da palavra em português". Mais: pessoas diferentes utilizavam formas diferentes da palavra. Eu continuei a usar a versão "poliamor" (e "poliamoroso" para me referenciar a mim mesmo) - essencialmente por gosto pessoal, só porque "poliamoria" não me soava bem. Acabei até a tomar contacto com uma terceira versão: "poliamorismo".

Confesso que deixei cair a questão, e na minha cabeça traduzi todos os modos da palavra para "poliamor". Mas depois - há uma semana, mais coisa menos coisa - lembrei-me que daria um bom tema (?) para um post aqui. De modo que resolvi armar-me em linguista amador. Ou seja: se alguém discordar de mim, óptimo - manifeste-se!

Então, a ver vamos, que versão estará correcta?
Para responder a isto, perdi todos uns 60 segundos a olhar para a minha fiel "Nova Gramática do Português Contemporâneo", de Celso Cunha e Lindley Cintra.

Conclusões:
Para designar "a coisa" em si (ou seja, aquilo a que eu gostava de chamar "poliamor"), a forma mais correcta será poliamorismo.
Para designar uma pessoa que se reveja, pratique, ou afins, no poliamorismo, usa-se poliamorista.
O uso de poliamoria designará, apenas, eventualmente, o conjunto de poliamoristas, caso se considerem que formem um grupo (e.g.: cavalaria, burguesia).


Explicações:
Tudo isto radica na simples questão: O que significam os sufixos aplicados à palavra?
"-ismo" pode significar, entre outras coisas: a) doutrinas ou sistemas (artísticos, filosóficos, políticos, religiosos, etc); b) modo de proceder ou pensar.
"-ista" refere-se, entre outros sentidos, a partidários ou sectários de doutrinas ou sistemas (cujo sufixo é -ismo).
"-ia" pode significar uma noção colectiva.

Porém:
  • Não é o uso que estabelece a forma "correcta", na perspectiva de que a linguagem é um construto social cujas regras apenas existem a posteriori e como uma tentativa (sempre infrutífera) de estabelecer uma total uniformidade eficiente? E, nesse caso, qual é o uso que devemos considerar? Em português, parece-me que este tende para a versão "poliamor". (Id est, no Google temos ~33600 resultados para "poliamor" e menos de mil para "poliamorismo".)
  • Não poderemos até acabar a seguir uma via que produza uma palavra totalmente diferente desta, menos... híbrida? Ou será que isso é agora, por questões identitárias, pouco aconselhável, mesmo contraproducente?
Perguntas para as quais não tenho resposta. Convido-vos a criá-la comigo, connosco. Claro que esta pequena reflexão se debruça apenas sobre que palavras usar dentro de um conjunto limitado. Para outra altura ficarão algumas considerações sobre estas e outras palavras, noutros contextos - sem nunca deixar de lado a questão da nomeação e da identidade no processo público de reconhecimento intersubjectivo.

Foto roubada daqui.

2 comentários:

carpe vitam! disse...

curiosamente, o meu primeiro contacto com o assunto foi quando tropecei num post sobre "o que é ciúme" de um blog brasileiro que já não existe chamado "além de dois". Aquilo fez tanto sentido para mim que me pus a investigar a fonte e fui parar ao "the ethical slut". espreitei também o "Polyamory: The New Love Without Limits" mas não o acho tão esclarecedor como o primeiro, pareceu-me mais um elaborado convite a workshops da autora, não querendo desfazer na pertinência que os mesmos possam ter.

sinceramente, pouca diferença me faz a etimologia da palavra, até acho que a ideia de juntar duas origens distintas contribui lindamente para o CONCEITO que pretende transmitir, isso sim, é que me importa.

vou continuar a ler a tese :)

Daniel Cardoso disse...

Concordo, também prefiro o The Ethical Slut, especialmente na sua segunda versão.

Quanto à etimologia da palavra, não me parece de sobremaneira relevante, mas sem dúvida que marca uma curiosidade minha :)

Boas leituras, e obrigado pelo comentário!