segunda-feira, 31 de agosto de 2009

My Little Pony

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Escrevo isto no dia em que fui pela última vez ao encontro (stammtich) bimensal poly de Munique, encontro esse que co-fundei. Por estar a mudar de cidade, tenho de deixar para trás algumas actividades poly-activistas, porque não posso estar presente ou porque simplesmente faz mais sentido passar o testemunho a outras. Passei a pasta numas coisas, noutras nem por isso.

Surge agora o tempo de fazer alguns balanços, "o que fiz bem", "o que fiz mal", "se deveria fazer antes assim", "faz sentido tentar isto em Portugal", "ou não", "porquê?"... No geral, e para não vos maçar muito, estou contente. Acho que não fiz muito, fiz até muito pouco, "demasiado pouco" mas, o que fiz, fiz numa altura em que não havia muito mais gente a fazer, juntei forças com outros que também queriam fazer coisas, e cativei pessoas para acreditarem nesse mesmo fazer. O que me propus fazer, fiz acontecer.

Mudo-me agora para uma cidade onde é tão normal ser poly nos meios em que me movo (cena queer) que os encontros regulares que por lá há são bastante pouco frequentados. (repito, cena queer, os encontros poly "mistos" continuam autênticas festas de solteiros profissionais). Fala-se de poly e as pessoas bocejam de tédio. Na verdade, quase toda a gente que conheço em Berlim é poly ou já foi. Vai-me saber bem ir como "cliente", e não como organizadora. Tenho planos e ideias, mas acho que vou estar quietinha, pés em cima da mesa, por uns tempos.

Hoje foi um dia de despedida, em que todos os membros do nosso encontro bimensal se esforçaram para me irem abraçar e desejar boa sorte, e planear qual o melhor futuro para aqueles encontros e sua organização.

Lembrei-me por isso de outra despedida, outra conclusão, outra separação. Em 2008 tive o privilégio de ajudar humilde e atrapalhadamente a organizar o segundo poly camp para mulheres e transgénero com a Gwendo, minha inspiradora, exemplo e companheira de conspiração. Foi um processo bonito mas em que nos metemos em grandes alhadas, que a custo conseguimos resolver. Sofremos um bocado com o quiosque, na nossa inocência e falta de experiência. No fim suspirámos de alivio ao ver o slutcamp (aka Schlampenau) ficar de pé, com as suas 20-30 galdérias em alegre e desenvergonhada partilha vadia, sem ninguém passar fome, sem faltar combustível, sem nada correr mal. Na semana a seguir, a Gwendo resolveu visitar-me e dizer-me "depois do que tens trabalhado pelo poly na Alemanha, é a minha vez de contribuir para a tua alegria, e para o poly em Portugal". Sorriu, e deu-me o livro cuja imagem podem ver.

Nunca o abri, como devem calcular, mas foi dos presentes mais bonitos que recebi.

(Reminder to self: deixar-me de, ao blogar, contar histórias poly, e começar a falar dos meus mentores, como a Gwendo, que também os houve, e com grande importância)

Para aqueles que se sentem defraudados com o tom pessoal e lamechas deste post, e não querem saber de séries de TV de culto com póneis e tal, deixo então um apanhado de referências "estrangeiras" ao poly em Portugal. Trabalho do Alan, do blog "poly in the media". Links: 1 2 3

domingo, 30 de agosto de 2009

To think you can love more than one lover....

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Polyamory Song - David Rovics

I heard a woman talking | And to me what she said just made sense | She was lamenting the state of affairs | How some people can be so dense | She said she had three wonderful children | Two girls and their little brother | And nobody gave her problems for loving | Each child as much as the other | But they'll say you are bad | Or perhaps you are mad | Or at least you should stay undercover | Your mind must be bare | If you would dare | To think you can love more than one lover | I like Italian espresso | But I also dig French wine | And now and then that BC bud | Leaves me feeling fine | I like to get a buzz sometimes | I like sobriety | Most people understand this | They also like variety | (Chorus) | I like the redwood forests | But the desert makes me want to sing | And those little Irish villages | When the churchbells ring | I like to busk in Boston | And hang out in the cafes in Berlin | I like lots of different places | And nobody tells me it's a sin | (Chorus) | Each one of the four seasons | Leaves me feeling good | Sitting in the shade in summer | In the winter chopping wood | Sometimes I like cloudy days | But I also dig the sun | And I don't think I'm crazy | For having so much fun | (Chorus)

sábado, 29 de agosto de 2009

Reminiscências

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Tenho 23 jovens aninhos, o que faz de mim um dos mais novos membros do grupo. Descobri o poliamor quando tinha 18 anos, na minha primeira relação, que se mantém ainda hoje. Já tinha lido o famoso Um Estranho numa Terra Estranha, de Heinlein, mas não me tinha feito nenhum clique – vi tudo aquilo como normal, talvez porque fui criada de uma forma que me habituou a respeitar as escolhas de vida dos outros.

Foto por Sofia Duarte

Quando me apaixonei, foi uma história algo caricata, e na primeira conversa um/@ d@s actuais companheir@s fez questão de me deixar bem claro que era poliamoros@ – muito embora nenhum de nós conhecesse na altura a palavra. Não me “assustei”, mas confesso que fiquei espantada – afinal, era realmente a primeira conversa, nunca tínhamos trocado sequer um casual bom dia.

Quando, cerca de um mês depois, começámos a nossa relação, nunca me passou pela cabeça outra coisa que não fosse respeitar aquilo que el@ tinha tido o cuidado de me informar logo desde o início. Quem era eu, afinal, para tentar alterar a forma de viver del@? Resolvi experimentar. A teoria fazia sentido para mim, embora soubesse que só quando tomasse contacto com a prática ia perceber realmente se conseguia ou não viver assim.

Cerca de cinco meses depois, tive o primeiro contacto com a realidade. Não foi um contacto agradável – houve erros de parte a parte, a pessoa não era a mais indicada e não soube expressar de forma clara aquilo queria, de tal forma que só anos depois conseguimos perceber realmente as suas intenções na altura.

Foi duro. Não foi fácil, e eu chorei, e pensei em desistir. Parecia demasiado difícil viver aquilo, e não me sentia apoiada. Mas amava-@ verdadeiramente, e por isso lutei. Acabei por ter momentos menos inteligentes, tanto aí como em outras relações ao longo do tempo em que se repetiram os mesmos erros. Desesperei várias vezes, pensando que não sabia se ia conseguir viver com tanta hipocrisia, com tanta falsidade.

Entretanto, conhecemos a palavra poliamor, conhecemos o grupo Poly Portugal, e crescemos. E, há pouco mais de um ano, surgiu uma nova pessoa. Com ela tudo foi, finalmente, senão fácil, pelo menos claro e límpido. Honestidade, finalmente. Respirei fundo, e foi mais fácil vivê-lo – embora continuasse a ter as minhas inseguranças, pelo menos sabia realmente com o que estava a lidar. El@ tornou-se não só fuck buddy del@, mas também amig@ do coração. E isso foi bom.

O tempo foi passando, e amb@s nos apaixonámos. Pela mesma mulher. Que também se apaixonou por nós. E agora somos três, o que faz de mim, segundo a minha irmã, alguém “muito à frente”. E somos felizes assim. Ainda não tivemos problemas, mas havemos de ter, claro. Não vivemos nenhum conto de fadas.

E pronto, esta é a minha história. A história de alguém que nunca teve uma relação monógama, embora nunca tivesse imaginado ter uma relação que não o fosse.
Texto da autoria de Sophia

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A pura relação e o poliamor - IV

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A basic precept of intimate communication is that each person owns her own feelings. No one "makes" you feel jealous or insecure — the person who makes you feel that way is you. No matter what the other person is doing, what you feel in response is determined inside you. Even when somebody deliberately tries to hurt you, you make a choice about how you feel. You might feel angry, or hurt, or frightened, or guilty (one of your authors was raised Catholic, so she was trained to feel guilty about astonishing stuff). The choice, not usually conscious, happens inside you.

Owning your feelings is basic to understanding the boundaries of where you end and the next person begins and the perfect first step toward self-acceptance and self-love. - The Ethical Slut; Easton, Hardy, 2009
Uma das coisas que mais me surpreendeu ao ler o livro de Giddens foi precisamente o quanto ele se adiantou a outros autores na análise que fez, e como esta análise - mais tarde vertida em obras como o "The Ethical Slut" - aponta acima de tudo para uma certa zeitgeist que não se prende apenas com o poliamor.

Isto porque um elemento importante dentro de qualquer relação íntima - e não esquecer que a intimidade representa para Giddens um papel muitíssimo essencial, especialmente na pura relação, e que não se prende necessariamente com relações estritamente ditas "românticas" - implica o reconhecimento, validação e manutenção das fronteiras pessoais. Dos nossos limites.

Abrirmo-nos aos outros requer, paradoxalmente, a existência de barreiras pessoais, porque é um fenómeno comunicacional; requer também sensibilidade e tacto, já que não é o mesmo que viver sem pensamentos privados. - Giddens, 1993

A insistência do poliamor no fenómeno da comunicação não é acidental - a necessidade da comunicação advém precisamente da manutenção dessa pessoalidade que se arrisca a dissolver na relação codependente. Com o facto acrescido que o potencial aumento do número de pessoas envolvidas vem complexificar a questão, vem ligar pessoas que podem não estar directamente em contacto (punalua - my lover's lover), vem reticularizar (pág. 12) aquilo que antes era (aparentemente) polarizado. Assim, a necessidade de comunicar (leia-se, "de pôr em comum") as diferentes barreiras e fronteiras pessoais torna-se, talvez, ainda mais indispensável.

Assim, procuramos na relação o balanço entre a exposição da intimidade e a segurança das fronteiras da pessoalidade. E, porque não pode ser de outra maneira, sou constantemente relembrado de uma outra obra-prima - "Neon Genesis Evangelion". Lá, usa-se o conceito de Campo de Terror Absoluto ("AT Field"), para demarcar esse espaço de pessoalidade inviolável sem o qual não estamos com um Outro, mas apenas com a ilusão do Outro.

Índice
A pura relação e o poliamor - I
A pura relação e o poliamor - II
A pura relação e o poliamor - III

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Sou todos eles... sou um polyedro

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Tradução: "Escolho um futuro sem perspectivas. Vou fazer o que sempre quis. Escrever. Agora é tudo claro, simples, límpido. Eu não sou este, nem este... nem este. Mas sou todos eles. Eu sou ele, ele e ele. E ele... e ele também. E sou ele também. («Quero escrever livros».) E a ele não quero decepcioná-lo. Sou ela... ela... e ela também. Sou francês, espanhol, inglês, dinamarquês. Não sou um, mas muitos. Sou como a Europa, sou tudo isso. Sou uma autêntica confusão..."
Sequência final do filme L'Auberge Espagnole, de Cédric Klapisch, sobre a experiência de um estudante de Erasmus em Barcelona.

"Sou muito mais do que o Stanley Cole que chegou a Harrad há sete meses atrás. Sou eu mais a Beth, mais a Sheila e mais todas as influências que absorvi [...]. Quando fizemos amor [...] foi porque gostávamos um do outro e queríamos partilhar a profundidade disso numa libertação natural do nosso afecto.
A verdadeira alegria no acto do amor acontece quando as defesas humanas normais estão em baixo, quando o assumir de papéis e de posturas desaparece. [...] A maior catarse não é o orgasmo. [...] É a revelação de que [as pessoas] são pequenas criaturas desajeitadas, com necessidade de ser amadas."

The Harrad Experiment, Robert Rimmer, pág. 118

Se há coisa que, olhando para trás, me parece inegável, é que o poliamor fez de mim uma pessoa mais rica, completa e versátil.
O conjunto de pessoas que nos permitimos conhecer intimamente, nesses momentos de abandono em que atingimos o que de mais profundo há no outro e em que nos damos de peito aberto ao que de nós queiram aceitar, torna-nos seres mais livres e conscientes.
E nesse percurso não deixamos de ser nós, não somos incompletos sem companhia, mas vamos crescendo e ajudando a crescer através da livre partilha de experiências e pensamentos. Ainda citando Rimmer: "Tu és tu, prolongado na alegria e confiança da outra pessoa."
A ideia tradicional de que devemos procurar uma e só uma pessoa que nos traga o que nos falta para sermos um todo, é limitativa e introduz pressão em nós e no ser eleito.
Uma pessoa é algo tridimensional, um poliedro com várias faces, facetas e arestas. Com possibilidades infinitas de encontrar novas formas dentro de si e em intersecção com outros.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

amorverdadeiro.com.pt

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um estudo recente da universidade do minho revela que a violência nas relações afectivas é cada vez mais precoce. diz mesmo que um em cada quatro jovens foi vítima de violência no namoro.

continua, dizendo que em geral nem as vítimas, nem os agressores, entendem que a violência não é aceitável e que muitos toleram e chegam mesmo a desculpabilizar a mesma.

é mais ou menos assim que começa o texto de um panfleto da comissão para a cidadania e igualdade de género sobre a violência no namoro. continua explanando uma série de factos e mitos sobre o problema. é claro que numa perspectiva hetero/mononormativa os factos básicos do panfleto estão correctos. desmistifica os mitos do amor romântico com a chegada do cavaleiro andante num cavalo branco, do amor que não é verdadeiro se não existe ciúme ou que entre o marido e mulher não se mete a colher, entre outros do género numa lista de 13 factos.

portanto ficamos a saber que num mundo perfeito não deve haver violência entre casais de sexo diferente e se desde de pequen@s respeitarmos estes ensinamentos, vai tudo correr bem na vida conjugal... tradicional e socialmente conformada.

o que me preocupa é que o panfleto é publicado pela comissão para a cidadania e igualdade de género: ora bem, pensava eu que o conceito de cidadania seria abrangente e depois igualdade de género era o remate para golo, mas pelos vistos não é assim tão linear.

nenhum outro formato de relação foi contemplado neste documento de circulação massiva. ficaram excluídas as pessoas lésbicas, gay, bissexuais e trangéneras, mas ficaram também as pessoas que, sendo ou não heterossexuais, escolhem viver os relacionamentos de uma outra forma que, sendo de "namoro" e afectivas, não se resumem a dois participantes.

ou há cidadania ou então comem todos!

ah! a propósito, o sítio na net para saber mais sobre o assunto é: amorverdadeiro.com.pt... amor verdadeiro? e único?

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Ainda bem que há ciúme!

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Se o ciúme não existisse, as pessoas amar-se-iam menos? Claro que não!

Mas a verdade é que sem ciúme nunca teriam sido escritas algumas das mais belas canções que conheço.

O filme brasileiro Perdoa-me por me traíres estreou-se há 25 anos. Chico Buarque, quanto a mim o melhor letrista de língua portuguesa de todos os tempos, escreveu para a banda sonora deste filme a música e letra da extraordinária canção "Mil perdões", que termina com os inesquecíveis versos
Te perdoo
Por te trair
Na voz de Gal Costa (a voz do filme):


Sentimentos tão negativos e improdutivos como o ciúme ou o desejo de vingança têm dado, de facto, canções poderosamente bonitas. Só para continuar com o Chico, vale a pena (re)ouvir / (re)ler as impressionantes canções "Atrás da porta" (Dei pra maldizer o nosso lar | Pra sujar teu nome, te humilhar | E me vingar a qualquer preço | Te adorando pelo avesso | Pra mostrar que inda sou tua | Só pra provar que inda sou tua…) ou "Olhos nos olhos" (Quando você me deixou, meu bem | Me disse pra ser feliz e passar bem | Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci | Mas depois, como era de costume, obedeci | […] | Quando talvez precisar de mim | 'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim | Olhos nos olhos, quero ver o que você diz | Quero ver como suporta me ver tão feliz).

Com músicas assim, o que é que querem que eu diga? Ainda bem que o ciúme existe. Perdoem-me por me trair.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Vivam os Comics: Aline

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(Agradeço a tip à minha colega poly-friendly A.L., que sempre se interessou pela forma como eu vivo sem me fazer sentir um bicho no jardim zoológico, e ainda me tenta apoiar discretamente onde pode e sabe).

Aline não é exactamente uma personagem de romance, mas é uma personagem de banda desenhada, o que vai dar ao mesmo. Ou melhor ainda, dependendo dos gostos.

Aline tem dois namorados. Partilha apartamento, cama e mesa com ambos. Os pequenos percalços do quotidiano são-nos mostrados com ligeireza mas não sem ironia e, para aqueles que vivem uma relação não-monogâmica (não necessariamente no modelo de Aline), está sempre presente a cada página o sentimento de que o autor acerta mesmo na "mouche"... Aline é incrivelmente normal. Não é uma heroína corajosa que enfrenta aventuras estranhas em que os seus dotes disto ou de aquilo se tenham de evidenciar. É uma mulher jovem igual a tantas outras. Com confiança q.b., com insegurança humana, com um quotidiano normalíssimo que partilha não com um mas com dois namorados. Não filosofa sobre o seu modo de vida nem questiona o seu desejo em termos morais. Nada nos indica que seja uma pessoa amoral ou o contrário. É simplesmente irrelevante para a história ser interessante ou para a personagem ser consistente.

Quero conhecer mais gente assim, principalmente mulheres. Gente que viva bem com o seu desejo e sem problemas morais herdados de outrem (
que tenha só os próprios problemas morais, digamos assim...), que entre em contacto comigo. Urgentemente.

Esta série, Aline, do autor Adão Iturrusgarai, é publicada pela Devir.
Para saber mais: Press release da Devir, Site Oficial de Iturrusgarai, e uma boa colecção de links sobre Aline (entrevistas ao autor, críticas,...).

Enjoy!!
(post original aqui)

domingo, 23 de agosto de 2009

Citações (1)...

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«Hard work and monogamy are highly overrated.»

(O trabalho duro e a monogamia são muito sobrestimados.)

atrib. a Oscar Wilde (1854-1900)

sábado, 22 de agosto de 2009

Juntatudoísmo

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Acabadinha de participar numa conferência mundial lgbt de direitos humanos, enquanto voluntária (porque os direitos humanos esqueceram-se de incluir o "direito à participação em conferências de direitos humanos para todos, independentemente da situação financeira", facto que, aliás, deu direito a tarde DIY meio-separatista de resposta).
Grandes discussões e representações, embora, se até os bissexuais estiveram muito pouco representados, o poly ainda menos. Mas em jeito de discussão, valeu a pena lembrar que poly e bi não são bem a mesma coisa. Que são eixos diferentes. Um na não limitação do género, e outro na não limitação do número.
Mas houve quem insistisse - "não se pode ser bi, sem se ser poly". Mas pode, bem pode. O que não se pode é andar a lutar por direitos tão de base, quando uma das grandes guerras ainda é a interna.
O bi desafia a dicotomia da monossexualidade, e por isso, não é muito bem-vindo nos movimentos lgbt. A não ser quando tem uma representação forte, como no BiCon em Inglaterra, e o próprio movimento bi é o inclusivo, abraçando todos quantos são bi-friendly, e daí, também, à escolha, kinky, fetichistas, BDSMs, ou polys. Fora daí, não é de surpreender que os bis estejam também mais representados no poly, por este ser um movimento mais inclusivo.
Muitas guerras se têm feito à custa de diferenças e de marcar essas diferenças - with us or against us - mas haverá de certo formas de fazer direitos humanos, como o meu amigo brasileiro chama a estas ideias de juntar quem se gosta, de comer e ficar com o bolo (na barriga), haverá decerto formas de luta que sejam mais no estilo do "juntatudoísmo".
Di Ponti

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Supostos

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Infidelity is such a problem because we take monogamy for granted; we treat it as the norm. - Adam Phillips, 1996

Qual o problema de tratar a monogamia como um dado adquirido? O silêncio.

No pressuposto da monogamia, encerra-se um guião que a imaginação quer estável. Na presunção de uma uniformidade, anulam-se as diferenças pessoais, subjectivas, os interesses específicos, e tudo o que mais seja.

Na pressuposição da monogamia ignora-se a inexistência de uma Monogamia (assim mesmo, com "M" maiúsculo) - porque se o poliamor pode ser vivido de milhentas maneiras, com milhentas nuances, o mesmo é aplicável sem pôr nem tirar à monogamia (muito embora as nuances sejam diferentes entre si, claro).

O oposto da monogamia não é a poligamia. Nem é o poliamor. O oposto da monogamia é a infidelidade. Porque a monogamia é muitas vezes construída como demonstração (e como teste!) da fidelização de alguém, o que se lhe opõe é precisamente a infidelidade. E, como diz a citação que abre este post, a infidelidade torna-se tanto mais problemática quanto a monogamia segue a via do dogma. Questionar a monogamia não tem que conduzir necessariamente a um comportamento poly, ou não-monógamo. Mas leva à redefinição da monogamia em si e, por conseguinte, à redefinição e relativização da infidelidade. Atenção, porém: este processo só pode ser realizado de forma dialógica.

Porque o silêncio cria a Monogamia, só o barulho do diálogo pode criar a monogamia. Ou o poliamor.


quinta-feira, 20 de agosto de 2009

"Agora sim... aparecem gajas boas!!"

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Desde que criei o site, já lá vão seis anos, volta e meia recebo emails de pessoas que o descobrem. Algumas são precisamente o "público" que eu tentava atingir, ou seja, criaturas como eu, que se identificam com todos os princípios do poliamor mas viveram longos anos da sua vida sem saber que alguém lhe tinha posto um nome.
Outras são pessoas com muitas dúvidas e que, por alguma razão insondável, acham que eu tenho alguma espécie de treino ou autoridade para as poder ajudar. Há alturas em que o meu email mais parece uma caixa de correio sentimental, com várias sessões de aconselhamento, perguntas e respostas para trás e para a frente. Muitas das perguntas são minhas, acabando a maior parte das vezes confusa e surpresa com o caos que vai na cabeça de muita gente e, principalmente, com o egocentrismo.
Agora... o que me deixa sempre de sobrolho franzido e (depois de alguma troca de mensagens) mesmo estupefacta, são alguns homens (sim, vários ao longo deste tempo) que me escrevem, basicamente a perguntar: "Então e gajas? Onde é que eu posso conhecer gajas? Essas malucas do poliamor que, se andam nisto, com certeza comem tudo o que mexe, e eu, que até pisco os olhos, tenho uma hipótese garantida!"

Para exemplificar, deixo aqui algumas pérolas, preservando o anonimato dos autores:

"A grande dificuldade que tenho sentido é encontrar companheiras que partilhem este modo de vida, por isso verifiquei com muito apreço o vosso site, que me deu esperança de encontrar pessoas como eu. Gostava de saber mais... como posso conhecer pessoas que sejam adeptas do poliamor?"

Ora cá está uma maneira educada de dizer "então e gajas??".
Tudo o que se segue é pura alarvidade.

"Gostaria de conhecer mulheres, com abertura para mais que amizade partilhada. O mesmo é dizer, receptivas para amar. Como poderei saber se existem mulheres disponíveis (...), e como contactá-las?"

"Estou solteiro e já tive algumas experiências de vida a dois, que fracassaram e gostaria de conhecer gente com mente aberta para partilhar a vida e o amor. (...) deixo-vos o meu contacto para darem a membros femininos interessados, ou como os conhecer."

E por fim... a pièce de résistance:

"Estive a ler a vosso site e ocorreu-me de súbito uma dúvida: e se quiser entrar em gangbangs com várias mulheres ao mesmo tempo? Isso é permitido nas relações poliamores ou é, pelo contrário, uma forma deturpada de exprimir o amor poli ?"

Meus amigos… se eu soubesse onde é que elas andam… aí sim, talvez tivesse conselhos para vos dar, baseados em experiência própria. Mas que eu saiba, gajas boas só em Ermesinde.
E mesmo aí… é preciso um(a) gajo(a) não se precipitar!

* Para quem não se lembra, o título do post é uma das frases constantemente repetidas por Herman José e pelo público, na primeira versão da Roda da Sorte.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

só... estar só

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é engraçado que nas duas postagens desta semana se fale, na primeira directamente e na segunda indirectamente, sobre o estado de estar só e a solidão.

a antidote é muito clara... é socialmente "perigoso" estar-se sozinho: isto é, sem outra(s) pessoas que se veja(m) integradas numa, ou várias relações. os julgamentos nunca tardam e raramente são simpáticos. o simples facto de querermos estar sós, ou vivermos sozinhos, é visto como um defeito e nunca como uma opção de vida.

parece que estar só é sinónimo de solidão.

na segunda postagem, onde o shortokapi evoca os 40 anos de woodstock, o tema do festival era, aparentemente, paz, amor, sexo, drogas, rock & roll... mas acima de tudo era o amor livre (free love) que pairava. era a geração do vale tudo no que concerne ao amor.

mas foi mesmo este tema que os músicos evocaram durante aqueles três loucos dias e noites?

se pensarmos em temas como "with a little help from my friends", "me and bobby mcgee", "try" ou a balada de amor "samba pa ti", percebemos que, apesar de se estar na geração do amor livre, a evocação é do amor romântico, heteronormativo e monogâmico. se juntarmos à música os comentários que muitos dos artistas faziam entre canções, facilmente se entende que estavam assolados pela solidão e que a solução para a sua felicidade era ter alguém... leia-se um grande amor. assim seriam felizes!

aprofundando um pouco as vidas destes artistas, aparece na generalidade dos casos o uso descontrolado de substâncias alteradoras do seu estado emocional, que em alguns casos levou à sua morte prematura: janis joplin ou jimi hendrix... outros andaram anos no desespero do uso e só décadas mais tarde encontraram a paz da recuperação: joe cocker, pete townsend ou neil young estarão agora felizes?

o medo da solidão adicionado à pressão social e estigmatizante de "ficar só" pode ser devastador para alguns.

será que volvidos 40 anos conseguimos alterar este preconceito e libertarmo-nos para poder viver conforme nos sentimos felizes?

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Woodstock já chegou aos 40

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Fez esta madrugada 40 anos sobre a última actuação do Festival de Woodstock, Hey Joe, de Jimi Hendrix. O festival estava calendarizado para terminar no domingo, 17 de Agosto, mas as 500 mil pessoas que encheram os campos de luzerna da quinta de Max Yasgur obrigaram a festa a prolongar-se pelo dia seguinte adentro. Bem, em rigor, uma tempestade durante a tarde contribuiu também para as várias horas de atraso.

Os Estados Unidos estavam numa guerra idiota com o Vietname e o tema principal do festival era a paz. No entanto, a quantidade de hippies que afluíram ao local acabou por juntar o amor à paz, e Woodstock tornou-se num dos mais importantes passos na difusão para o mundo inteiro do conceito de peace and love.

Eu só tinha sete anos mas a minha irmã já era mais crescidinha e passado pouco tempo já estávamos a ouvir T. Rex, Suzi Quatro e outras revoluções musicais do género. Além de Beatles, claro. Mas as ideias poliamorosas só me surgiriam seis ou sete anos mais tarde.

Agora estou com curiosidade, muita curiosidade, de ver o filme do argumentista James Schamus e do realizador Ang Lee Taking Woodstock, que se estreou no Festival de Cannes e chega a Portugal já daqui a duas semanas. Aqui fica o trailer oficial, em inglês:

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Os solteiros, esses desconhecidos..

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Nos dias em que me farto de falar de poliamor, vou por vezes buscar modos de vida que também são passados a ferro pelo paradigma monogâmico. Quem não se encaixa no esquema do parzinho-primordial-como-o-Estado-quer-e-a-Socie- dade-gosta, seja por ser poliamoroso, seja por dizer as coisas duma maneira demasiado honesta que desafia as aparências, seja por rejeitar todo aquele sistema de valores que vem com o pacote, entra no bucho do papão da mononormatividade couple-centric.

Um modo de vida, constante ou transitório, voluntário ou não, que não encaixa no par-primordial, para o qual vos quero chamar a atenção, é simplesmente ficar sozinho. Single, sozinho, solteiro, celibatário...

Ficar sozinho também desafia as normas. Ficar "orgulhosamente só", por escolha. Ficar sozinho mas rejeitando a pressão social para se "arranjar alguém", rejeitando a neurose e o estigma social que geralmente acompanha quem fica sozinho. A conclusão mais frequente é que, uma vez que ninguém, obviamente, fica sozinho por escolha própria, é porque de certeza não é boa pessoa, cheira mal dos pés, come criancinhas, ou é um grande chato.

Por outras palavras... Ou é "coitado, não consegue arranjar ninguém" (não interessa muito bem quem nem porquê, como se o "alguém" fosse um bem anónimo, tipo radiador novo para o carro) ou é "com aquele feitio, claro que está sozinho"... Muito poucos pensam que estar sozinho é um estado que pode ser desejável e voluntariamente procurado. Há quem pense que são uma ameaça para a sociedade

É difícil de encaixar a muito boa gente que há quem fique sozinho por escolha. Pessoas com uma vida preenchida socialmente ou com paixões especificas e absorventes por determinados temas e/ou actividades talvez não estejam propriamente infelizes por estarem sozinhos. Talvez haja quem voluntariamente decida não ter relações para alem de um determinado círculo social..

A mim o que me saltou à vista foi o alívio imediato da tentação de se saltar para a próxima relação de modo acrítico só porque se está sozinho. O decidir activamente não começar uma nova história só porque ela está "ali".

Lembro-me de uma das pessoas, a Albertine, em quem penso muito quando penso em vidas poly e antigas diferentes das minhas. E ela diz-me sempre que foi das melhores coisas que fez, foi passar voluntariamente 3 anos sozinha. Aumentou-lhe a lucidez, a capacidade de dizer não e de dizer sim.

Desafio-vos a darem uma vista de olhos pelos Quirky Alone. É bastante ilustrador.

http://quirkyalone.net/qa

http://www.todolistmagazine.com/quirkylikeus.html

http://en.wikipedia.org/wiki/Quirkyalone

(baseado neste post da Laundry List)

domingo, 16 de agosto de 2009

Bullshit! — Family Values

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Penn & Teller são dois entertainers americanos sem par no mundo do entretenimento. Os espectáculos deles são um misto de magia e comédia mas a sua especialidade é a desconstrução de mitos, fraudes e truques.

Durante a sua longa carreira (trabalham juntos há quase 40 anos), têm feito um trabalho de desmistificação ao nível do de James Randi (também ele um bright). Ao contrário de Randi, no entanto, nunca abandonaram a prática do espectáculo; regressaram assim à origem, ao primeiro desta linha de cépticos, o fabuloso Houdini.

Atenção: estes senhores são excelentes ilusionistas e não têm nada a ver com a miséria dum programa que esteve recentemente na televisão portuguesa, em que um anónimo mostrava como se fazem os truques de magia. Penn & Teller, quando mostram as entranhas de um truque de magia, fazem-no apenas como graça, e acima de tudo é um truque inventado por eles próprios.

A série Penn & Teller: Bullshit!, que começou em 2003 e ainda agora continua (já vai na 7ª série, ou season, como agora diz toda a gente), tem algumas pérolas entre os já mais de 60 episódios. O que interessa para o Poly Portugal é o 2º episódio da 3ª season, intitulado Family Values (Valores Familiares). É só para quem souber inglês. Salvo erro, a série nunca passou em nenhum dos canais por cabo portugueses.

Como, além disso, comprar o DVD da season (UPC 097368015340) serve a pouca gente — porque é região 1, ou seja, teoricamente só pode ser visto nos Estados Unidos e Canadá —, fica aqui o vídeo. O episódio completo, de 30 minutos, está no YouTube (ver links mais abaixo). Mas um fã canadiano resolveu editá-lo, reduzindo-o a menos de 20 minutos. Está muito bem montado e está lá o essencial. O episódio contém várias entrevistas que desmascaram o discurso pobre e circular de alguns tradicionalistas, outras entrevistas a sociólogas e afins, e ainda umas conversas muito civilizadas com uma família poliamorosa. Não é dos melhores episódios mas é interessante mesmo assim. Aqui fica para se divertirem:


Caso alguém queira ver o episódio completo, aqui está, em três partes: 1 2 3

sábado, 15 de agosto de 2009

Fingir sentimentos para sobreviver?

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(continuação do post da semana passada)
Afinal aquela historinha, tão ligeira para mim, tinha sido um drama. Ele gostava de mim (não o mostrou para se proteger) e eu magoei-o muito. Ele começou a namorar com a ex do meu "namorado" para se vingar dele (ãh?!?!?!?!) E eu estava mesmo muito apaixonada (só eu é que não sabia) pelo macho, e até queria casar e ter filhos (mas eu não quero ter filhos e sou contra o casamento!)!!!
(what the f***!?!?!?!?!)

Pronto. Dei por mim a pedir desculpas e a explicar que não, não tinha estado assim apaixonada e que aquilo não tinha sido importante. Percebi que um conto foi aumentado para novela e que precisávamos conversar tête-à-tête, mesmo não me agradando a ideia de a companheira dele não poder saber.
E de repente

— Eles já estão outra vez separados. Vais voltar para ele?
— Não!!!!!!!!!
(que parte do eu não estava apaixonada é difícil de perceber?!)

Há anos, ele não me mostrou que gostava de mim, para se proteger. Hoje não gosta da companheira com quem vive. Está arrependido de não ter lutado por mim. Eu magoei-o, mas ainda gosta de mim. Quer-se encontrar comigo às escondidas.

A companheira dele faz-se de porreira em público e finge gostar de mim. Por uma questão de sobrevivência.

Os outros dois, que até já estão outra vez separados… bom, pelo menos um mentia quando ambos diziam não gostar um do outro ou quando se desdisseram ou quando disseram que gostavam de nós, e até mentem quando falam de mim.

"E o pirata sou eu!"
Nunca disse estar apaixonada, porque não estava. Não assumi compromissos que não queria ter. Pensava que tinha sido sempre bem explícita e transparente. Estava de consciência tranquila.
Mas sou a má da fita. Magoei quem gostava de mim. Menti. E continuo a mentir quando digo que não estava apaixonada, para não assumir a minha dor.

Pode ser de estar sem os óculos, mas para mim esta história só existe porque esta sociedade nos impinge uma monogamia hipócrita e uma fidelidade teórica. Abusa-se do pronome possessivo até quando se fala de pessoas. És um coitadinho se não tens namorado ou se "ficas para tia", tens de "cuidar do teu território" para não perder "a tua presa", tens de te proteger, de ser astuto…
Muito do que chamei mentira pode ter sido inconsciente, porque é assim que toda a gente faz.
Mas não era mais fácil eles não terem mentido? Para todos?
Por que razão é tão difícil pararmos, olharmos bem para nós, e tentarmos perceber o que queremos, em vez do que a sociedade diz que é bom para nós? Por que raio é tão difícil sair das relações que já não nos fazem felizes?
Por que temos de esconder o amor?
Ou as lágrimas?

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A pura relação e o poliamor - III

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Falava eu há umas semanas de encontrarmos a antítese da pura relação para percebermos afinal qual é o sentido da pura relação e, mais ainda, porque é que a monogamia não é essa antítese.

Regressemos então ao mesmo livro para retirar um outro conceito que Giddens reformula:

Uma pessoa codependente é alguém que, para manter um certo nível de segurança ontológica, precisa que outro indivíduo, ou conjunto de indivíduos, definam as suas necessidades [...]. Uma relação codependente é uma relação em que um indivíduo está psicologicamente preso a um parceiro/a cujas actividades são governadas por uma qualquer impulsividade. Designarei por relação fixada [original: "fixated"] aquela em que a relação em si mesma é o objecto da adição. - Anthony Giddens

Pode parecer uma descrição complicada, mas darei dois exemplos que rapidamente esclarecerão o assunto - uma expressão popular e um detalhe presente em contos de fadas.


"Tu és a minha cara-metade."
Quantos de nós já não ouvimos esta expressão? Pode parecer muito doce, até, mas comporta três consequências fundamentais. A primeira é que, se alguém é uma "cara-metade", isso quer dizer que é também apenas meia-cara; o mesmo é dizer, cada pessoa é apenas meia pessoa, incompleta, em falta, que se esfrega no limite do surreal. Segue-se, em segundo lugar, a ideia da ilusão da completude - que a outra metade vem "encaixar", qual puzzle, e criar uma unidade (uma perfeição, portanto) que não deixa espaços em branco, que é tudo. A isto também se segue, em terceiro lugar, que o importante deixa de ser a outra pessoa, para passar a ser a relação - relação essa que é fusional, que pretende apagar as fronteiras entre sujeitos (quiçá destruir ambos!) para transformar dois meio sujeitos numa relação. Magia das magias, 1+1=1. Claro que, se usei aqui a relação a dois, foi apenas como exemplo mais simples - poderíamos ao invés disso usar 1+1+1+2+1=1, e a história não seria diferente, a base de raciocínio seria exactamente igual. Porém, convém não esquecer que a "cara-metade" é, acima de tudo, o ex libris do ideal romântico (no sentido oitocentista do termo).

Como forma de demonstrar o ponto acima, chamo a atenção para os contos de fadas. "E viveram felizes para sempre. O fim."
Esta felicidade toda parece ser inquestionável - mas atentemos mais de perto. O jogo que se desenrola nos contos de fadas é, novamente, o jogo da dependência. A princesa (encantada) depende da salvação do príncipe, e o príncipe só tem como objectivo principal conquistá-la. Toda a trama se processa em torno da conquista. E depois, perguntarão? Bem, depois, para todos os efeitos práticos, toda a gente morre. Porque a história termina com a união do casal, todo o resto do mundo se revela como apenas a base de suporte para uma relação que engole tudo à sua volta, auto-fágica mesmo, e cujo começo marca também o seu fim (ou a sua crio-preservação) e, consequentemente, o fim dos seus actores.

E voltamos então à pergunta: o que representa para o sujeito a pura relação? Como pode o sujeito fugir da sua fusão e dissolução na relação (codependente)?

Continua...

Índice
A pura relação e o poliamor - I
A pura relação e o poliamor - II

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Não era a mesma coisa...

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(continuação do post da semana passada)
É algo que sempre me intrigará. O ciúme do desconhecido. Ou seja: "Gosto de ti, mas tu tens um namorado com quem dormes quase todos os dias. Tudo bem, quem sou eu para querer ocupar o lugar dele!! Agora... Foste para a cama com outra pessoa, já depois de teres começado comigo? Como és capaz? Que tipo de pessoa fria e pervertida és tu?? "
Então mas... que parte do "Não acredito na monogamia." é que as pessoas não apanham? Simplesmente assumem que por estar apaixonada e o demonstrar, não vou ter atracção por outras pessoas? Perdão, por pessoas novas. Porque pelo "maridinho" tudo bem. O próprio não percebe a diferença, nem porque raio nunca é razão de ciúme.
Voltando à história... houve silêncio e consternação. Houve acusações e sofrimento. Incompreensão. Tragédia. E no meio de uma das conversas, depois de horas a dar voltas à questão, surgiu a ideia de que a única coisa que atrapalhava aquela relação era precisamente a possibilidade de pessoas "novas". O medo do desconhecido. Uma espécie de aracnofobia. Nunca se sabe quando nem onde o bicho decide ferrar o dente. Tudo bem.
- Então e se eu tentasse durante uns tempos não estar com mais ninguém a não ser vocês os dois, isso funcionaria para ti?
- Eras capaz?
- Há anos que não tento tal coisa. Mas se é isso que falta nesta relação... Não sou propriamente ninfomaníaca. Com dois gajos por quem estou apaixonada, hei-de me aguentar...
E aguentei. Sem grande esforço, porque a maior parte das vezes é o que acontece. Estou numa relação com uma pessoa e não aparecem outras. Mas esta era uma situação nova. Evitar deliberadamente novas relações. Aceitei-o também como um desafio de autoconhecimento. Queria saber se era possível. Se podia viver sem o poliamor.
O fim da história é mais ou menos previsível. A nossa relação acabou porque sim. Porque jantávamos sempre em casa dele ou do outro lado da rua. Porque ele não apreciava o sexo de manhã (para mim a principal vantagem de passar a noite com alguém). Porque punha tudo e mais alguma coisa numa prioridade acima de mim. Porque no fundo nunca se quis envolver muito. O que seria algo aceitável se o que pedisse em troca fosse equivalente. Mas não era. O que eu lhe dava em troca era um compromisso que nunca estive disposta a assumir com outra pessoa, talvez simplesmente porque nunca mo pediram. Porque nunca tinha passado pela cabeça de ninguém, nem pela minha.
Claramente não é esta a questão. A atracção por outras pessoas está lá, mais ou menos intensamente, dentro de toda a gente (estava com certeza nele, que eu bem a vi). Se decidimos ou não agir com base nisso, negar ou aceitar essa realidade, tem a ver com as opções e os valores de cada um.
O meu nome é Lara. Se eu podia viver sem o poliamor? Poder podia, mas não era a mesma coisa.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

sentir-me frubbly

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entretanto passou uma semana e o meu filho já chegou de londres, de onde trouxe a sobrinha de nove anos. fui ao aeroporto, junto com a mãe dele, claro, buscá-los... depois de uma visita rápida ao macdonalds (as sandes da ba deixaram muito a desejar!), levámos a sobrinha dele para casa da mãe dela e depois de babarmos tod@s uns minutos sobre o irmãozito, que dormia alegremente, esse filho da mãe com outro pai, estivemos a combinar a festa dos dez anos da nossa jovem... de maneira a ser usufruída por tod@s.

para os filh@s de mães e pais polypraticantes e/ou polysimpatizantes a vida realmente é-lhes muito facilitada, se compararmos com a vida de muitas, naturalmente não todas, crianças e jovens filh@s de pais e mães separad@s.

férias! por exemplo... pois bem é uma altura crítica para muitas crianças e jovens. quando deviam estar descansad@s a pensar em curtir uns dias de férias com o pai e depois com a mãe, ou vice-versa, muit@s estão a ser alvo de guerras violentas entre esses mesmos pais, normalmente resultantes de situações amorosas mal resolvidas entre el@s, que nada têm a ver com @s filh@s.

numa grande maioria de casos o verdadeiro problema por detrás destas situações é o ciúme... uma das partes sente-se "traída" pela outra, ou depois de um divórcio "civilizado" ele... ou ela, muito embora seja normalmente ele, "refaça a vida" e está o caldo entornado! e rapidamente se chega à guerra... e quem sofre? @s filh@s... claro.

aprendi, na minha profissão e na vida, que é sempre melhor manter as coisas simples.

não chegamos a um consenso, nas nossas muitas discussões em grupo, sobre uma tradução para a palavra compersion ou feeling frubbly, mas não ficamos com qualquer dúvida sobre o seu significado. se calhar neste contexto poderíamos pensar que quer dizer o oposto de ciúme. gosto da ideia de me sentir frubbly com o bem estar de outra pessoa, se ainda a amo, mesmo que o contexto desse amor tenha mudado.

é tão mais simples se nos autorizamos a nós próprios a amar as pessoas que queremos, sejam el@s quant@s forem e ao mesmo tempo sentirmos-nos bem com o amor que essas pessoas tenham por outr@s... sentirmos-nos frubbly...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Comunicação não-verbal

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Jantar combinado, estou à espera à porta do restaurante. O telemóvel toca. Mudança de planos:

— Achavas muito estranho se eu agora te dissesse para vires para minha casa?
— Não, tudo bem.
— Estou cá sem mais ninguém a noite toda.
— OK, assim já acho estranho.

Rimo-nos os dois. Damo-nos bem porque sabemos ambos o que fica por dizer. Mais tarde acrescentei:

— A última vez que ouvi a frase «Vou estar sem mais ninguém a noite toda», pouco depois estavam a dizer-me «Tira-me a cueca». Assim mesmo, no singular.
— E conseguiste não rir?
— Estávamos colados… — Quando a distância física é nula, é difícil criarmos distância mental.


Garden State

Fast-forward. Seis da manhã. Já vimos dois filmes. Fantásticos, ambos. Se a minha memória fosse decente, com certeza lembrar-me-ia de diálogos de qualquer dos dois. Fui ao script-o-rama para recarregar a memória, e aqui vai um excerto de um desses filmes, Garden State. Largeman, o protagonista, acaba de conhecer uma rapariga, Sam, que já lhe mentiu várias vezes numa conversa de meio minuto. Segue-se:
— Costumas mentir muito?
— Muito é o quê para ti?
— Que chegue para as pessoas te chamarem mentirosa.
— As pessoas chamam-me muitas coisas.
— E uma delas é «mentirosa»?
— Eu agora podia dizer que não mas como é que sabias que não estava a mentir?
— Bem, podia escolher confiar em ti.
— Achas que és capaz?
— Posso tentar.
Ao longo de todo o filme, este Largeman tem uma empatia muito «feminina»: o silêncio para ele é tão revelador como a conversa mais detalhada com as explicações mais completas. Mas eu diria que essa empatia, independentemente do género e da nabice natural de cada um, nasce em todos nós quando nos enamoramos.


Tem-me faltado a empatia neste último ano. Ou, com certeza melhor analisado: tenho tido menos confiança no que me diz a intuição. O problema está na confiança, a intuição tem estado lá a tentar ajudar-me como sempre. Mas é mais fácil culpar a empatia.

À conta disso — e apesar de ter como nunca a sensação de que não faltam homens e mulheres que gostariam de dar umas voltinhas, ou ficarem meus amigos, ou amantes, ou namorados — estou actualmente entre os poliamorosos com menos amores do mundo. Zero, diria eu. É claro que, graças a esta reduzida empatia, ou intuição, arrisco-me a que agora, ao ler isto, haja por aí mais do que uma pessoa a pensar «então e eu não conto?».

Não é que eu não goste de algumas dessas pessoas. Gosto mesmo muito. Mas é um gostar egocêntrico. Como quem gosta de um gelado de baunilha: não sinto grande empatia com a baunilha.

Entre as questões do poliamor não deixam de estar, é claro, as questões do amor. Eu estava com dúvidas do tipo «esta pessoa ainda gosta de mim ou já passou à fase de não me tolerar as idiossincrasias?» Já tínhamos falado sobre isso. Uma conversa do tipo «sim, gosto» mas com o tom de «não tenho paciência». A noite dos dois filmes foi poderosa. Não falámos de nós. Mas os filmes escolhidos, a descontracção com que estivemos horas a fio, tudo o que não foi dito, revelou que o tom afinal tinha sido de «não estou neste momento com paciência».

Comunicação, comunicação, comunicação. É um mantra do poliamor. E meu. Mas é importante dar também atenção à comunicação não-verbal. Serei capaz de escolher confiar na minha intuição? Posso tentar.

Nota: Fui buscar a ideia de que a empatia ("capacidade de se aperceber intuitivamente de como os outros estão a sentir-se, e tratá-los com cuidado e sensibilidade") é uma característica «feminina» a um artigo do neurocientista Simon Baron-Cohen sobre diferenças entre os cérebros masculino e feminino ("They just can't help it"). Curiosidade: este Baron-Cohen, com hífen, é primo do Sacha Baron Cohen, sem hífen, actor e autor dos famosos Brüno, Borat e Ali G.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

o poly explicado às criancas?

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Sacado daqui, em grande falta de tempo para escrever algo novo :-)
Sugestão de leitura: Else-Marie and her seven daddies

Para quem acha que um estilo de vida poliamoroso é algo que se deve levar às escondidas e de preferência que as crianças não fiquem a saber, é melhor parar de ler AQUI e JÁ. Para os outros, fica esta sugestão deliciosa de um livro para crianças com temática poliamorosa: Else-Marie and her seven daddies. Aproveitem a silly season para oferecer alguma coisa finalmente inteligente a alguém. Este livro por exemplo.
Else Marie tem sete pais em vez de um. E quando descobre que eles a vão buscar à escola, apercebe-se de repente de que a sua vida, que até então lhe parecia tão normal, não é como a dos outros meninos. Lindo. Era isto que eu estava a precisar de ter (empowerment) antes de enfrentar a minha família na sua faceta mais mononormativa.
Ler aqui a crítica de um leitor (muito bem escrita) no site da Amazon.

domingo, 9 de agosto de 2009

Já dizia o Sting: If you love somebody...

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If you need somebody, call my name | If you want someone, you can do the same | If you want to keep something precious | You got to lock it up and throw away the key | If you want to hold onto your possession | Don't even think about me | If you love somebody, set them free | If it's a mirror you want, just look into my eyes | Or a whipping boy, someone to despise | Or a prisoner in the dark | Tied up in chains you just can't see | Or a beast in a gilded cage | That's all some people ever want to be | If you love somebody, set them free | You can't control an independent heart | Can't tear the one you love apart | Forever conditioned to believe that we can't live | We can't live here and be happy with less | So many riches, so many souls | Everything we see we want to possess | If you need somebody, call my name | If you want someone, you can do the same | If you want to keep something precious | You got to lock it up and throw away the key | If you want to hold onto your possession | Don't even think about me | If you love somebody, set them free
Sting, "If You Love Somebody Set Them Free", The Dream Of The Blue Turtles, 1985

sábado, 8 de agosto de 2009

Fingir sentimentos para sobreviver?

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O ser humano é incrível. Pelos vistos, por uma questão de sobrevivência, as pessoas mentem e não mostram os seus sentimentos. Mas isso engana outros, que vão agir (e quem sabe também fingir) consoante os sentimentos supostos, e não os verdadeiros, criando uma sucessão de mal-entendidos. E quando há alguém que não se põe com tretas e é verdadeiro... ninguém acredita!

Ontem falei com alguém com quem há uns anos vivi uns momentos muitos giros.
Havia muito carinho e amizade à mistura. Mas nunca achei haver sequer uma paixoneta. Ninguém jamais falou nesses termos. Para mim fomos dois amigos que durante algum tempo se encontraram mais vezes e de uma forma mais "colorida". Sem filmes.
Pouco tempo depois estávamos ambos com outras relações. Curiosamente, fomos exactamente relacionar-nos com duas pontas de um casal em ruptura. Inicialmente, parecia que "eles" tinham uma relação apaixonada; no "nós" ele estava apaixonado por mim, eu gostava mais de como ele parecia gostar de mim e do tipo de relação que tínhamos que dele (e sempre o disse). Mas isto foi tudo fugaz: em três tempos o casal reconciliou-se e acabaram os namoricos.
Peço desculpa ao mundo, mas nada disto me partiu o coração. Não estava apaixonada e ainda por cima tinha ajudado à reaproximação de duas pessoas que se amavam e que o tempo (a vida?) tinha afastado.
Toda a vida vivi paixões intensas e já não sei quantas vezes morri de amor. Mas também tive relações desapaixonadas, que começaram e acabaram com naturalidade. Aliás, a sensação de que tudo é efémero entranhou-se de tal modo em mim que os "finais" já não têm o mesmo impacto. Além de que a felicidade dos outros não me faz mossa (antes pelo contrário!).
Pois bem. Ontem a conversa começou com um "quando vamos jantar?" que adorei. Era muito fixe quando íamos para o tasco comer (eu, pregos em pão; ele, francesinhas), emborcar (ok, eu bebia duas ou três cristais pretas e ele uma dúzia de finos), e fumar feitos loucos (pronto, enquanto eu fumava cinco cigarros, ele dava cabo de um maço inteiro), por entre uma conversa agradável. Tenho saudades desses tempos.
— Vamos, claro!
— Tenho saudades tuas, beleza.
(be-quê!?!?!?!?...que estranho, da boca dele… não deve ser nada)
Começamos as combinações e, de repente:
— Mas a patroa não pode saber.
(o quê?!?!?!?!)
Explicou-me que ela tem ciúmes de mim. Que a relação porreira deles é fachada. Que ela é fixe comigo por uma questão de sobrevivência, pois sabe que ele tem carinho por mim. E ele já não gosta dela.
Fiquei chocada. Pensei que eram um casal feliz.
— E o teu patrão deixa?
— Eu não tenho patrões! Estás a confundir-me! Que mal tem jantarmos?
De repente a conversa deu um salto e estava a reviver o passado em Brideshead...
(Continua...)

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Modelos - II

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"But to declare "I am that name": woman, homosexual, proletarian, African American - or even man, white, civilized, responsible, masculine - is no outward representation of an inward and spiritual state but a response to that history of identification and its ambiguous gifts and legacies. - Nikolas Rose, 1998.

Na continuação do post da semana passada, eis-nos perante uma ideia aparentemente controversa. Que quando dizemos "Eu sou x", não estamos de facto a publicitar um estado de ser, mas a responder às invectivas dos mecanismos de produção de subjectividade(s), às tecnologias do self.

Quer isto dizer, portanto, que a noção de uma identidade precisa de ser repensada, repensada segundo um ponto de vista que coloque a pergunta não nos termos "O que sou eu?", mas sim "O que me levou a dizer que eu sou?"

Através deste movimento, poderemos então perceber que dizer "eu sou poliamoroso" é embarcar num jogo dialético de valores, posicionamento sociais, posturas face a elementos considerados fundamentais (sexo, amor, família) e, fundamentalmente, num jogo de reconhecimentos e possíveis exclusões, e não um arremesso ontológico do sujeito.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Uma coisa é certa: hoje durmo contigo

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O ciúme tem razões que a razão desconhece. Pessoalmente, desconheço todas as razões do ciúme porque, como costumo dizer, esqueceram-se dessa peça quando passei na linha de montagem. E não é gabarolice. Bem sei o quanto isso irrita algumas pessoas, e os problemas que esse handicap já me trouxe. Tenho tentado ao longo da vida perceber as causas, razões e manifestações de tal mecanismo, mas temo bem que nem sempre consiga.
Quando o conheci estava numa daquelas fases da minha vida em que sou mais poly de nome que outra coisa (ao contrário do que algumas pessoas pensam, ser poly não significa dormir com uma pessoa cada dia só porque se pode). Foi um daqueles episódios que nos custa a acreditar quando acontecem, porque durante anos e anos de adolescência a coisa nunca funcionou. Achar alguém interessante ao primeiro olhar, ser correspondido e vir a concretizar a atracção. Mais do que achar fascinante que isso aconteça, fico irremediavelmente presa e perdida por pessoas com quem tomei a iniciativa. Por várias razões, normalmente os homens não nos deixam tempo para dar o primeiro passo. Ou se o damos fogem, mais tarde ou mais cedo, a sete pés.
Saímos dali e fomos jantar. A única vez que jantámos a mais de um quilómetro da casa dele. Mais tarde repetiria que essa era a única condição que punha para voltar a vê-lo. Jantar a essa distância, e cinema. Nunca aconteceu.
Tivemos uma relação da qual não me orgulho, mas com a qual aprendi muito. Nesse primeiro jantar falei-lhe da pessoa com quem vivo e do tipo de relação que temos. O brilho de admiração que vi nos seus olhos foi o mesmo que já tinha visto noutras pessoas, mas conseguiu acentuar-se ainda mais quando lhe disse que sim, podia dormir com ele, aquela mesma noite se quiséssemos. Ênfase posto na palavra dormir, porque à parte do sexo fabuloso que chegámos a ter e do qual ainda hoje me fala, acho que o que ele gostava mesmo era de dormir com alguém.
E tudo correu lindamente até ao dia em que, para além do namorado de quem ele já tinha conhecimento, tive sexo com outra pessoa. Alguém que eu conhecia há anos antes de o conhecer a ele, com quem já tinha estado quase, quase, várias vezes. E com quem surgiu uma oportunidade quando surgiu. Mesmo depois de todas as acusações e duras palavras que ouvi, nunca me senti culpada. Não tinha mentido a ninguém. E ainda assim via-me, mais uma vez, metida no papel da má da fita.
Continua...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

família?

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um dos meus filhos, o frederico, viajou hoje de manhã... foi ter com um dos irmãos mais velhos, o salvador, que vive em londres com a namorada, a conceição.
foi lá passar uns dias de férias e na volta vai trazer a isabel, filha do salvador e da maria, que tem nove anos, que também lá está de férias.
mas o salvador não é meu filho, é filho da filipa e do antónio.
eu e a filipa é que somos pais do frederico e eu sou também pai do pedro e do luís.
a joana é a mãe do pedro e a constança é mãe do luís.
eu e a joana somos bons amigos e a filipa e a joana também, assim como eu e o antónio. a constança é que está um pouco mais afastada, mas tem uma relação cordial com a filipa, pedro, frederico e salvador.
o luís e a isabel têm a mesma idade e quando estamos todos juntos brincam até à exaustão.
a minha mãe, a tal coitada do filho assim, quando ainda era viva, mantinha uma firme amizadade com a joana, filipa, constança, antónio, helena, luísa e com os netos, incluindo o salvador, claro!
a mariana, mãe da filipa, é que se baralha um pouco com os "genros" e antes que acerte com o nome debita a lista.
é lógico que ao longo do tempo tem havido outras pessoas que têm atravessado as nossas vidas... nem todas têm tido uma participação tão intensa, mas não deixam, por isso, de ter o seu lugar nos nossos afectos.
nota: alguns dos nomes não são os verdadeiros, o resto sim!


terça-feira, 4 de agosto de 2009

Baunilha ou chocolate

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Hoje acordei a meio dum sonho. Estava não sei onde com vontade de comer um gelado de baunilha.

Não como gelado de baunilha há anos, provavelmente. É que há uma infinidade de sabores novos que quero provar de cada vez que surgem. A questão é que nunca me envolvi emocionalmente com a baunilha, caso contrário não passaria tanto tempo sem a ver.

O chocolate, por outro lado, sabe bem que não é por eu me apaixonar um dia (ou um ano ou trinta anos) pelo exótico Hawaiian Lehua Honey & Sweet Cream, pela ultra-romântica Karamel Sutra, pelo bom velho Old Fashioned Butter Pecan, por uma embriagante Tarte Gourmet Whisky ou até por um simples Solero Morango e Banana que alguma vez o vou deixar.

Está na hora de almoçar. Vou daqui directo à procura dum gelado de baunilha. Sim, também gosto de vanilla.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Poly dentro dos movimentos LGBT: uma oportunidade? (2ª.parte)

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(continuação do post da semana passada)

As tais reacções de hostilidade foram as que me fizeram desenterrar o que vem a seguir. Nas comunidades LGBT de língua alemã, a fracção lésbica que recusa o paradigma monogâmico tomaram como designação para esse movimento a palavra "Schlampagne", que é uma mistura bastante feliz de "Campagne" (campanha, no sentido de luta política) e "Schlampe" (vadia, galdéria, pega).
Do mesmo modo que no início dos movimentos feministas e lésbicos a palavra "lésbica" era usada como insulto pelo vulgo, sendo adoptada pelo movimento, reinventada com um novo sentido positivo, houve mulheres que começaram a usar palavras como "vadia" ou "galdéria" para se auto-descreverem como mulheres rebeldes em relações não monogâmicas, fora da boa ordem estabelecida, que não se preocupam minimamente com a reprovação de quem usa tais palavras como insulto intencional. Pergunto-me muitas vezes qual vai ser a palavra portuguesa (existente ou por inventar) que vamos inevitavelmente descobrir para descrever a mesma identidade. Eu gosto de "galdéria".

A "Schlampagne" bate-se pela colocação ao mesmo nível de consideração (material e social) de todos os modos de vida, em contrário ao acumular de privilégios (materiais e sociais) de certas formas de relação aprovadas socialmente (estamos a falar de casamento em sentido lato, em todas as suas variantes gay-hetero-religioso-civil-etc). As mulheres dinamizadoras deste projecto têm organizado encontros regulares. Na ordem dos trabalhos destes encontros encontra se a elaboração de estratégias concretas para atingir esse fim. Mas estes encontros têm servido também para três outros objectivos muito importantes. O primeiro é a auto-ajuda (criação de redes de contactos, encontros, troca de experiências, descoberta de identidade), o segundo a divulgação (quer dentro das várias comunidades lésbicas quer para a comunidade em geral) e o terceiro a influência política através de colaboração e negociação com organizações de solidariedade.

A modo de conclusão, gostava de acrescentar que não aprecio cega e necessariamente tudo o que se faz "lá fora" a nível de activismo ou auto identificação LGBT. A nossa comunidade é pequena, e por ter pouca gente activa, desenvolve-se mais devagar do que as comunidades "lá fora", é um facto. Mas há muitas vezes a tentação de tomar o estado das coisas (ou pelo menos a face mais visível desse estado de coisas) "lá fora" como a bitola do que as coisas devem ser ou passar a ser nas comunidades LGBT portuguesas (com algumas excepções). Penso que precisamente por não termos o mesmo ritmo de acontecimentos que "lá fora" temos a oportunidade de evitar repetir os erros de outros e de encontrar uma identidade própria. Isto para explicar que fui buscar este exemplo alemão simplesmente porque o tema me diz pessoalmente muito respeito, porque ilustra os conceitos que tenho estado a tentar explicar, porque é uma faceta do movimento LGBT de "lá fora" que, curiosamente, é pouco conhecido cá, e porque tem muito potencial em termos de discussões instrutivas.

Em Portugal, (..) parece haver motivos para se dizer que há bastantes mulheres/lésbicas que vivem ou contemplam viver "de modo contrário à ordem estabelecida". Resta saber se essas mulheres têm interesse em criar as tais redes de contacto e ajuda.

Fontes:
[1] www.graswurzel.net/243/schlampagne.shtml
[2] www.wikipedia.org (poliamor/polyamory)
[3] "Breaking the barriers to desire", K. Lano and C. Parry (ed.).Five Leaves Publications

domingo, 2 de agosto de 2009

Jogos humanos

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Está a fazer 10 anos que foi publicado o livro Jogos humanos, com argumento de Paulo Patrício e desenhos de Rui Ricardo. A edição, da Bedeteca de Lisboa em conjunto com a Associação Salão Internacional de Banda Desenhada do Porto, saiu por ocasião do penúltimo Salão.

É uma história de poliamor quase avant la lettre, passada entre adolescentes na cidade do Porto. Mas não se pense, pelos dois desenhos que aqui estão, que é uma história essencialmente erótica. Como descreve de forma concisa João Paulo Cotrim (na altura director da Bedeteca, creio):
"Tradicional e sem excessos gráficos, apesar do número de parceiros."
Tanto Rui Ricardo como o próprio Paulo Patrício têm hoje em dia melhor qualidade gráfica mas já eram experientes nesta altura. Vale a pena procurar esta raridade.

Muitas das bibliotecas municipais têm esta BD disponível e a Biblioteca Nacional tem dois exemplares. Quem quiser comprá-la, no entanto, vai ter dificuldade em encontrá-la à venda.

Muito poucas livrarias online têm agora este livro em catálogo (ISBN-10: 9729746990, ISBN-13: 9789729746994), nenhuma confirma tê-lo disponível e uma delas diz mesmo estar fora de stock:
Talvez seja possível encontrá-lo numa livraria especializada em fundos de colecção — por exemplo a Ler Devagar.

Além dos alfarrabistas, outra hipótese é procurar numa livraria de banda desenhada — de sucesso também duvidoso, porque se especializam normalmente em comics e manga. Aqui ficam alguns contactos: